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07/02/2007 22:15

Trabalho interdisciplinar de COM 341 e COM 381




Confusão de valores: a espetacularização da fé

Por Carla Mendes

“O Papa é pop, o Papa é pop e o pop não poupa ninguém”. Este é um trecho de um “Hit” dos anos 80, que fez sucesso na voz dos Engenheiros do Havaí. Passados mais de 20 anos, nada é mais atual do que o refrão, no que diz respeito à tão esperada visita do Papa Bento XVI ao Brasil. O pontífice ficará no país de 09 a 13 de maio para inaugurar a V Conferência Geral dos Bispos da América Latina e Caribe, que acontecerá de 13 a 31 de maio, na cidade de Aparecida do Norte, interior de São Paulo. A basílica, que recebe oito milhões de pessoas por ano, em apenas três dias deverá receber cerca de um milhão de romeiros.

É certo que o fato de o Brasil ser o primeiro país fora da Europa a receber a visita de Joseph Ratzinger, desde que assumiu o pontificado, seja um privilégio para a população católica, principalmente, mas nada justifica a espetacularização e desembolso de cerca de US$ 1,2 milhão, como tem sido divulgado pela mídia.

Como quem vai receber um astro de Hollywood, a Igreja Católica prepara uma “megaprodução” que, segundo o arcebispo Dom Raymundo Damasceno Assis, terá repercussão mundial: "as equipes de comunicação da V Conferência e da visita do Santo Padre estão trabalhando intensamente para criar uma infra-estrutura que permita transmitir a viagem do Papa e também os trabalhos da V Conferência não só para a América Latina, mas para o mundo todo".

Há quem diga até mesmo que algumas pessoas estão pensando em vender ingressos para a visita, como se estivessem promovendo um show de circo. A fé sendo comercializada mostra que a ganância pelo dinheiro faz muitos perderem a noção do verdadeiro significado de uma visita como esta: o Papa é (pelo menos pelo que prega o catolicismo), o representante divino na Terra, um exemplo de fé católica, evangelização e caridade, e não um astro da Broadway. Até a Igreja se insere no mundo tecnológico - A visita de Bento XVI já tem, inclusive, um site oficial, inaugurado quinta-feira, dia 1º de fevereiro.

O grande evento será custeado pelas igrejas, que também receberão ajuda de outros patrocinadores como, por exemplo, a Fundação das indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que forneceu recursos para reformar o Seminário Bom Jesus, local que irá hospedar o papa. Falando nisto, todos os 38 monges que vivem no andar em que Bento XVI e sua comitiva ficarão hospedados serão transferidos para um outro andar do Mosteiro. Será que algum de seus companheiros lhe faria mal? Eu acho que não...

É curioso imaginar que representantes de uma religião que sempre deu valor às coisas simples, nunca exaltou a riqueza e a ostentação, estejam sendo coniventes com alguns números: R$ 900 mil (levantados através de doações de fiéis) para a construção do palco onde o Papa realizará a missa; mais de R$ 500 mil para hospedagem de 300 religiosos vindos de 22 países para Aparecida; quase R$ 900 mil destinados aos sistemas de comunicação para a realização da cobertura do evento, dentre outros gastos exorbitantes que, se somados, ajudariam a minimizar muitos problemas sociais, como a fome e necessidades básicas de muitos brasileiros. Não quero dizer que a visita é pouco importante, mas o que incomoda são os exageros.

Segundo o representante do Vaticano, frei Hanz Stapel, os gastos não param, por aí: "Ainda não sabemos quanto vamos gastar. A cada dia, a conta aumenta. Estamos construindo uma casa para os bispos, um palco e uma nova igreja". Além disso, serão instalados telões digitais e cabines de tradução (inglês, alemão, russo, italiano e tagalo, o idioma das Filipinas). Estão cogitando até mesmo a instalação de torres de telefonia celular no local, mediante acordo com empresas do ramo. Lá vêm mais despesas...

Os meios de comunicação terão atenção mais que especial. Os organizadores afirmam que será fundamental investir na divulgação através do rádio, TV e Internet para “levar a mensagem do Evangelho, a mensagem do Santo Padre e também os trabalhos e os resultados da V Conferência”. Vou incluir, por minha conta, a divulgação da infra-estrutura e das empresas patrocinadoras. E as pessoas anônimas que doam suas vidas em prol dos mais necessitados, muitas vezes não tendo dinheiro para sustentarem com conforto nem a si mesmas? Estas dificilmente terão, um dia, a atenção das câmeras.

Finalmente, fica uma reflexão...Será que a banalização de tudo, tão na moda ultimamente, atingiu até mesmo o campo sacro? Vendo todos os dias milhares de pessoas passando fome e frio pelo mundo, vale a pena gastar milhões em estrutura para apenas um dia? Será que fazendo isso estão agradando a seu Deus? Sinceramente acho que tanto luxo e ostentação não faziam parte dos planos do criador...


enviada por Comufv2004






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