
Um dos fatos mais perversos e revoltantes dos últimos escândalos envolvendo a realidade brasileira diz respeito ao que vem ocorrendo no Rio de Janeiro, que teve seu ápice no início do ano. São cidadãos inocentes pagando com a própria vida o preço de um Estado relapso e uma justiça desorganizada. E é exatamente dessa brecha de que o dito Estado paralelo necessita para se validar.
O que gera um estado ainda mais perplexo é a maneira como os principais meios de comunicação do país (leia-se, principal não significa bom nem informativo) têm divulgado o fato. Isso pôde ser evidenciado numa publicação especial da Revista Veja, do dia 10 de Janeiro de 2007. Com matérias especiais ligadas a verdadeiros extermínios humanos, a revista se propôs a encontrar soluções para o problema: Nas próximas quarenta páginas, VEJA faz uma contribuição a esse bom combate, não só revelando entranhas e contornos do mundo da bandidagem, como propondo soluções para extirpar as raízes desse mal. E assim o faz com o seguinte subtítulo existente nos finais de todas as matérias: Como resolver o problema
Primeiro: as soluções teóricas são facílimas de serem apontadas, além disso, as possibilidades de prática se encontram totalmente distanciadas do que sabemos estar por trás da Revista Veja e de suas verdades ideológicas, que certamente estão aquém de qualquer tentativa de interferência na realidade social. Segundo: detectar que uma das grandes falhas do Estado está na deficiência de presídios, e oferecer dados numéricos sobre a superlotação das cadeias, é pensar muito superficialmente sobre o assunto, qualquer um sabe disso.
Analisar o problema a partir de suas conseqüências é alienar-se da realidade dos fatos. Já que o Jornalismo se diz instrumento de causas sociais, caberia à Revista ir diretamente nas raízes do problema. Não é necessário ocupar-se de metade da revista para desenvolver esse raciocínio. Apenas uma matéria seria suficiente para apontar que um país que não investe em educação, saúde, emprego, enfim, no mínimo de dignidade de seus cidadãos, assiste a espetáculos como os atentados como o do Rio de Janeiro, a atuação do PCC em São Paulo, e a tantas mazelas que presenciamos rotineiramente. Construir presídios, definitivamente, não resolve o problema.