Em outubro de 2006, chegou às bancas uma revista um tanto estranha. Era de dimensões bem maiores do que as que vemos diariamente, com nome de um estado brasileiro quase-esquecido e com capas que remetiam a um estilo gráfico meio artesanal. Chamava a atenção, sem dúvida. E isso tudo sem abrir a revista ainda. Ao folheá-la, enfim, susto: não se parecia com nada. Nada se parecia com ela.
Piauí. Era (e continua sendo) o nome da revista.
A
Piauí foi lançada sem grandes alardes. Chegou devagarzinho no mercado editorial, com algumas poucas publicações falando dela. Foi colocada no cantinho das bancas, parecendo até envergonhada de si mesma. Quem tinha ouvido falar dela, afinal? E que nome era esse, por favor? Nada parecia fazer sentido nessa revista, tudo dispersava. Era sólida e se desmanchava no ar. E para enfatizar ainda mais essa idéia, mal a revista foi lançada e já ganhou uma lista respeitável de críticas não exatamente positivas em vários sites, blogs e nas poucas discussões que ela pontuava. Falou-se até que a publicação deveria se chamar
Piauí, pois parecia um trenzinho desgovernado, sem rumo e que não dizia nada. Até falou-se bem dela em alguns lugares. Mas ninguém ouviu. Ou se fizeram de surdos.
Em um mercado editorial viciado e cansado como é o brasileiro, a
Piauí chegou com uma proposta (ou talvez uma não-proposta) diferenciada e quase torta. Mas o espanto inicial não é condenável. É algo que foge ao engessamento que a linguagem jornalística por vezes impõe. Os textos do miolo da revista são de assuntos completamente discrepantes entre si, com temas que vão desde filosofia a devaneio não-institucionalizado. Tiras, poemas e grafismos volta e meia invadem esses textos, apesar de não terem muito a ver com o tema escrito. A linguagem da
Piauí não é linear e cada artigo tem um tom próprio. Os textos têm liberdade estilística e acabam sendo extensão dos seus autores, e não uma farsa mal-ensaiada da neutralidade jornalística. Isso é resultado, em parte, do desprendimento que o artigo (como estilo de produção textual) permite.
Talvez a
Piauí tenha surgido como uma espécie de protesto contra o marasmo editorial de que sofre o Brasil, preso a modelos de publicações presas em si mesmas, encarceradas em um padrão estilístico que não permite a originalidade e padece de falta de sinceridade textual. Talvez a
Piauí tenha surgido só pra dar um susto nas revistas que nunca mudam e sempre estão nas bancas. A
Piauí já está na quarta edição. Talvez não dure muito. Mas só por ter mostrado que é possível fazer algo que transcenda a mesmice das publicações periódicas notadamente no que se refere ao jornalismo cultural já teve uma vida editorial louvável. Viva o trenzinho desgovernado.