Depois de ser visto por mais de 600 mil pessoas nos cinemas e de fazer sucesso entre a crítica especializada, começa a chegar às locadoras de todo o país o
filme Zuzu Angel. Dirigido pelo competente Sérgio Rezende, que também participou do roteiro, o filme é uma boa opção para os cinéfilos que sentiam a falta do tema ditadura militar nas telonas.
Baseada em fatos reais, a superprodução conta a história de Zuleika Angel Jones, a Zuzu, modista brasileira que se transformou em uma estilista conhecida internacionalmente nos anos 60. Seria a história de uma mulher comum, se ela não tivesse sido uma das personalidades que mais incomodaram a ditadura.
Interpretada com louvor pela belíssima Patrícia Pillar, Zuzu era até certa fase de sua vida alheia à situação política do Brasil. Bem diferente foi seu filho Stuart (Daniel de Oliveira), que ainda jovem ingressou na luta clandestina contra o regime. Com o desaparecimento de Tuti, como era carinhosamente chamado pela mãe, Zuzu o procura desesperadamente, até receber uma carta que denunciava a morte de seu filho nos porões da ditadura. É quando passa a buscar pelo corpo, que nunca foi entregue à família. O amor de mãe fala mais alto que as diferenças ideológicas, e Zuzu dá início a uma série de ações em protesto pelo assassinato de Stuart. No filme, é mostrado o momento em que a protagonista recorre até ao então secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger.
A sede por justiça repercute na moda de Zuzu. Ela, que antes fazia vestidos para esposas de militares, transforma seu trabalho em instrumento de contestação. Novos tons e estampas denunciam a revolta diante da falta de liberdade política no Brasil. Desta forma, a personagem confirmou na prática o que certa vez disse em entrevista a uma jornalista americana: moda é comunicação.
Outro mérito do filme são as cenas de tortura, comoventes e realistas ao retratar a arrogância e os abusos dos militares. Emocionante é o desfecho da história, com a cena do acidente de carro, provocado, que matou Zuzu em 1976, na saída de um túnel no Rio de Janeiro que hoje leva o seu nome.
Emoção ainda na trilha sonora de Cristóvão Bastos. O destaque é a música Angélica, composta por Chico Buarque em homenagem à estilista morta. Grande amiga do cantor, foi com ele que Zuzu antes de morrer deixou uma carta dizendo que, se algo lhe acontecesse, seria obra dos mesmos assassinos de seu filho.
Mais que tensa e dramática, a história de mãe e filho que pagaram com a vida o preço da liberdade se mostra, sobretudo, oportuna. Relatos desta natureza motivam a sociedade a dar valor às instituições democráticas, sem as quais o cidadão não pode fazer o que há de mais essencial: agir segundo a própria vontade. O povo precisa substituir a descrença total com a política brasileira pela lição de que a realidade de agora poderia ser bem pior.