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09/02/2007 23:48

A reinvenção do carnaval

Natália Cordeiro

Tem dias em que somos levados a pensar num assunto e acabamos redescobrindo coisas. Ao escrever sobre o carnaval, expressão imbatível de brasilidade, acabei descobrindo uma realidade que incorpora em nossa consciência de identidade, como traços de um Brasil criado, só para satisfazer nossa vontade de identidade nacional e que tenta transformar o antigo em recente, a tradição em novidade, o desejo em fantasia.

O mais curioso ainda é essa feição pelo espetáculo do carnaval brasileiro, em que o visual virou quesito e palavra de ordem geral, além do brilho, penas e nudez.

Nossa “ópera” carnavalizada é tão recente quanto sua inesperada universalização território nacional adentro. Expansão que se processou com a mesma rapidez e naturalidade com que a crescente racionalização da organização do evento e sua imersão na indústria cultural e do turismo lhe acentuaram o caráter de classe e estratificada por raça e cor, ou seja, camarotes –cadeiras -arquibancadas. Realidades perversas que resistiram, reprocessadas ao ritmo frenético da transformação industrial.

Simultaneamente, ficamos presos e reproduzimos um discurso intelectual sobre o carnaval, uma armadilha romântica. Uma idealização de um festival dionisíaco, causador e integrador da grande sociedade nacional. A fusão das alegrias individuais em alegria geral, a inversão simbólica das hierarquias, a superação das distâncias, a transgressão geral das convenções.

O discurso acadêmico dominante tende a ser de exaltação dessa “festa total” como expressão máxima e revigorante da autenticidade de nossa potente originalidade cultural, que não dispensa na exteriorização desavergonhada de nós mesmos num permanente estado de gozo enquanto dura o carnaval.

A telinha se encarrega de mostrar isso em todos os lares, durante três ou quatro dias. Sustenta o sonho teimoso a rondar a bela alma dos brasileiros. A bela alma de muitos intelectuais. Encarrega-se de mostrar os napoleões detidos no esplendor da liberdade até o dia clarear.

Esse é o país dos carnavais.

enviada por Comufv2004






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