A POSSE E A ELEIÇÃO NO CONGRESSO NACIONAL
Qual é o seu papel na história?
Por Marihá Garcia
Eleições 2007. Os brasileiros devem estar se perguntando: como assim? Não tivemos eleições no ano passado? Ou será que o Lula foi cassado por causa daquele rolo com o tal do mensalão? Não, é isso mesmo que estamos vendo, ouvindo e lendo nos telejornais, rádios e jornais de todo o país: 2007 também é um ano de eleições, mas não para a escolha do novo presidente do Brasil, e sim da Câmara Federal.
Será que o voto para presidente da Câmara também é obrigatório? Que dia é a eleição? As dúvidas não param, pelo contrário. Agora, a nova eleição não conta com a preferência de quase 100 milhões de brasileiros e sim de somente 513 eleitores: os deputados federais.
O Presidente escolhido será aquele que se pronunciará coletivamente e supervisionará os trabalhos dos deputados. Além disso, ao maior posto da Mesa Diretora da Câmara caberá outra função de extrema relevância para a política brasileira: a responsabilidade de substituir o Presidente da República, de acordo com os termos do artigo 80 da Constituição.
E a disputa pela presidência da Câmara foi tão ou mais acirrada que a das eleições do ano passado. Ambas tiveram segundo turno, mas para a escolha do chefe da Câmara houve somente três candidatos que tinham exatamente 510 votos a serem conquistados, já que obviamente, cada um dos aspirantes a cadeira da presidência votou em si mesmo. Além disso, pairava um conflito um tanto quanto interessante no ar: a base governista apresentou dois candidatos, o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) e Aldo Rebelo (PC do B-SP) que tentara a reeleição. Enquanto a oposição foi representada por Gustavo Fruet (PSDB-PR).
Aqui não houve pesquisa do Ibope, ou do Data Folha, encomendada por um ou outro veiculo de comunicação. Chinaglia, Aldo e Fruet, cada um correu atrás do seu provável eleitor. Acordos entre os partidos foram pensados, planejados, feitos e às vezes desfeitos.
Os votos são calculados segundo as possíveis mudanças de opinião dos deputados. Nesse tipo de eleição é comum aceitar que o eleitor, no caso o deputado, tem e pode exercer o benefício da dúvida ao contrário das pesquisas que são feitas durante as eleições para Presidente da República, em que os números sempre correspondem á fiel opinião do eleitor. E é aí que a política revela explicitamente seu lado mais desprezível: o eterno jogo de interesses. A isso, somam-se as peregrinações a cada gabinete, a caça do apoio incondicional às propostas de governo.
Cada voto foi milimetricamente computado pelos candidatos. O mais curioso é que os números que cada um provavelmente teria, chegou a superar o número de deputados existentes na Câmara. E aí começavam as especulações sobre quem poderia ou não trair determinado candidato. Isso mesmo que está escrito: traição. Para se ter uma idéia, Chinaglia, candidato eleito, venceu Aldo Rabelo por 261 a 243 votos. 18 votos que representaram uma diferença apertada, mostrando que algumas desistências de deputados que supostamente apoiavam um ou outro candidato, devido a posição dos partidos, podem sim ter influência significativa.
Verdadeiras campanhas publicitárias foram montadas. Com slogan e tudo o mais que cada deputado tinha direito para atrair os votos de seus prezados colegas. Como, por exemplo, a carta de compromisso e o cartaz que Gustavo Fruet distribui nos gabinetes com a seguinte frase: "Esta é a Câmara que o Brasil quer". Porém, a empreitada teve suas exceções: nada de propaganda obrigatória gratuita na mídia, ou de carros de som nas ruas na véspera da eleição. Afinal, os eleitores são outros. E o contato corpo a corpo é o mais recomendável.
Para termos uma real visão da importância de uma eleição como esta, o Congresso organizou um debate entre os candidatos, exibido ao vivo pela TV Câmara no dia 29 de Janeiro, três dias antes da eleição. E o mais interessante disso foi a manifestação do exercício da democracia: semelhante ao último debate do segundo turno das eleições presidenciáveis de 2006, a população brasileira pôde interferir diretamente, enviando perguntas aos deputados pela internet e pelo Disque-Câmara (0800 619619).
E é nesse ponto que a história fica muito mais complexa do que parece. Quem, na verdade, são os maiores atingidos com a escolha do novo presidente da Câmara? A população em geral, ou os deputados? Você obviamente deve estar pensando: os deputados, claro. Afinal, foram eles que votaram. E de certa forma a resposta tem coerência, já que campanha e promessas foram feitas aos parlamentares. Mas quero que o benefício da dúvida passe despercebido.
E o cidadão comum? Não teve vez? Teve. No debate ele teve vez. O espaço estava aberto para opiniões, questionamentos e críticas. Mas quem sabia, de fato, desse detalhe? A TV Câmara não é um canal aberto, como Rede Globo ou SBT. Seu sinal é distribuído na rede de tv por assinatura, e também pode ser captado por antena parabólica. A inclusão digital ainda não alcançou todos os quatro cantos do país. E para agravar ainda mais a situação, o brasileiro não possui uma formação política.
Por isso fica explícito que poucos são aqueles que dominam, conhecem ou, pelo menos, se interessaram por esse tipo de acontecimento. A política do Brasil nem sempre é acompanhada, pensada, e, consequentemente, bem quista. Também é fato que a mídia contribuiu, e muito, para que o assunto fosse colocado na pauta de muitas discussões de uma maneira um tanto quanto superficial. Já que não se viu um resgate da história das eleições na Câmara Federal, o que mostra uma falta de comprometimento com a população, que em sua maioria, não está atenta para a responsabilidade que os deputados tinham e continuam a ter diante da sua escolha, mesmo após a eleição.
É fato que o tema foi amplamente difundido das mais diversas maneiras. As formas de se discutir a eleição não deixaram a desejar: podemos acompanhar o desenrolar dos acontecimentos tanto através do jornal impresso, nosso mais antigo companheiro, como através de sites e blogs,que muitas vezes conseguem ser mais eficazes e velozes no divulgação da informação do que a tv. Por isso não devemos retirar o mérito da imprensa brasileira, que cumpriu o seu papel.
A eleição aconteceu. E foi um sucesso. Afinal, entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Chinaglia terá pela frente um mandato de 2 anos, Aldo Rebelo continuará na base governista, mas já anuncia apoio a Ciro Gomes em 2010, a Fruet restará mesmo a oposição. Recomeçam as especulações, a politicagem. Recomeçou o jogo de interesses, a busca pelo apoio nas bancadas, a troca de favores, a cobrança dos juros e correção monetária. Será que também, dessa vez, a opinião do brasileiro será requisitada? Será que o país tomou e tomará conhecimento do que acontecerá em Brasília? Sugestões ou críticas ligue 0800 619619. Teremos o prazer em ouvi-lo.